
A VIDA É BELA
La Vita è Bella (Roberto Benigni. Itália, 1997)
FERNANDES, Evandro R.
Analise do filme “La Vita è Bella” - Parte 1
O objetivo desta análise é de expor alguns pontos mais específicos do filme ao que se relaciona à história da Segunda Guerra Mundial que, ao meu ver, foram poucos explorados pelo diretor Benigni, que na produção de seu filme priorizou a fábula comédio-dramática, porém, quero deixar claro, que no filme de Benigni não há valor histórico algum, muito pelo contrário, o meu objetivo é justamente contribuir para este aspecto do filme.
La Vita è Bella (A Vida é Bela, Roberto Benigni. Itália, 1997) vencedor de três Oscares em 1999, conta a historia de Guido, interpretado por Roberto Benigni, através de uma comédia trágica, conta sua saga para proteger sua família, principalmente seu filho, Giosué, dos horrores causados pelas perseguições nazistas sobre os judeus durante o período em que Hitler assume o poder na Alemanha e com ele institui as crenças anti-semitas e a superioridade racial, que como apresentado no filme contagia todos os países pertencentes ao Eixo.
Guido (Benigni) inicia sua fábula em 1939. Este período se vê presentemente marcado pela ascensão do fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha, já amplamente difundidos pelo mundo em seus países simpatizantes, sendo que principalmente suas teorias raciais e expansionistas, esta ultima se estruturava fundamentada no projeto do “espaço vital”.
Guido e Ferruccio (colocar nome do ator) se dirigem a cidade de Arezzo, cidade localizada na região da Toscana, no centro da Itália, em 1939, a caminho da cidade, temos o primeiro ponto passível de analise deste filme, Guido e seu amigo Ferruccio, com seu carro sem freio, atravessam uma homenagem ao rei da Itália. A primeira vista esta cena pode parecer simplesmente mais uma parte do enredo da comédia, mas, o rei em questão é Vítor Emanuel III, (1869-1947). Emanuel III aparece no enredo do filme como uma figura ilustrativa, apenas figurativa, o que de fato este realmente o era após a “Marcha sobre Roma” de 1922, onde Emanuel III legitima o poder da Itália à Mussolini.
Guido e Ferruccio desprovidos das responsabilidades trabalhistas chegam a Arezzo vindos do interior se deparam com a cidade grande e se deslumbram com ela, ao procurarem a casa de seu tio (nome do ator) onde se hospedariam, fica evidente o clima que precede o inicio da Segunda Guerra mundial, a propaganda como forma de manipulação das massas se reflete na serie de cartazes de Benito Mussolini fixados nas paredes das casas, através deste tipo de propaganda, fica clara a exaltação da figura do Duce como “o grande homem da nação”. Ao chegar à casa de seu tio, Guido se depara com dois sujeitos que saem da li correndo, no instante da cena não conseguimos distinguir quem são e o que fazem os tais sujeitos, porém, com o decorrer do filme, entenderemos quem são os tais personagens, com isso, Benigni sutilmente, começa a apresentar o fator que permeará toda a segunda parte de seu filme – o anti-semitismo judaico.
Tal simpatia aos preceitos nazistas é tão contagiante a população que ao levar Ferruccio ao seu trabalhado, duas crianças brincam na cena e, depois de uma conversa com o patrão de Ferruccio, Guido é alertado por ele: “comporte-se, a coisa ta feia, feia mesmo” e Guido o interroga sobra a sua visão política, e este se refere às crianças como “Benito” e “Adolfo”, mostrando seu fascínio pelos lideres ditadores da Itália e Alemanha e dispensando a continuação do diálogo com Guido.
Após deixar seu amigo em seu emprego, Guido se dirige a prefeitura onde busca uma licença para que possa abrir sua própria livraria, chegando lá encontra toda a burocracia pertinente a tais processos devido a censura e manipulação cultural característica dos regimes totalitários, desta forma não permitindo que estabelecimentos de cunho cultural como uma livraria, seja abertos sem que passem por uma previa analise governamental dos materiais que são comercializados e a ideologia que eles transmitirão a população, de uma forma dirigida à manutenção do status quo da sociedade.
Guido é contratado para o empregado de garçom no restaurante onde seu tio trabalha, descobre-se a partir daí mais um personagem fundamental à trama do filme, o médico alemão e amigo de charadas Guido, o Doutor Lessing. Sendo ele um cliente assíduo do restaurante e sua relação de trocas de adivinhações com Guido, faz com eles se tornem amigos e a admiração se torne mutua. Ao passo que no mesmo restaurante, surgem mais um personagem sem identificação de sua função no filme, apenas como representante do ministério de Roma, porém, de valiosa função aos nossos estudos ao que se refere a teoria de supremacia racial. Obtendo as informações com o representante do ministério, Guido se prepara para ir até a escola e assim fazer uma surpresa a sua “princesa”, e com isso aproveitando sua função como “representante do ministério”, Benigni satiriza as teorias raciais diante das crianças.
Outro detalhe presente é perceptível que essa palestra é realizada às crianças, onde a diretora da escola diz aos seus alunos que tal inspetor dirá coisas belíssimas sobre nossa pátria, que é o “Manifesto da Raça”, assinado pelos maiores cientistas italianos, com o intuito de comprovarem as pessoas que a sua raça é superior as outras. A questão ideológica da cartilha nazista eram transmitidas aos mais jovens para que estes pudessem assimilar e interiorizarem tais valores como corretos, certos e únicos desde a infância. Ao fundo pode se ler em italiano “fascista perfetto” fazendo alusão aos alunos de eles deveriam ser fascistas perfeitos e assim seguirem piamente a seus lideres, sua ideologia sem contestações, da mesma forma que já o acontecia com a juventude hitlerista na Alemanha.
As perseguições e as repressões aos judeus se tornam mais claras a partir do momento em que o cavalo do tio de Guido é encontrado pintado. Todo de verde e com as inscrições “Achtung, cavalo judeu”. Achtung, do alemão significa consideração, no contexto do filme, Benigni não apresenta nenhuma outra forma de interpretação desta frase com relação ao seu contexto, então podemos interpretar que por pertencer a um judeu (tio de Guido), considera-se o cavalo como judeu também. Nesta cena, o tio de Guido em conversa com Guido nos remete, nos espectadores, ao começo do filme, onde ao chegar em sua casa, Guido se depara com três homens que saem correndo, estes três homens, e aos que pintaram o cavalo, o tio de Guido se refere como “vândalos”, “bárbaros”, sendo então as duas situações são caracterizadas por ataques racistas de nazistas sobre os judeus.
Após o ocorrido com o cavalo, Guido retorna a festa no restaurante do hotel onde trabalha e se depara com a partida de Dr. Lessing para Berlin devido a um telegrama. Presencia-se a mesa de jantar o diálogo entre os convidados que discutem a “supremacia alemã” devido a sua política de eliminação de pessoas “geneticamente inferiores”, ou seja, que apresentam qualquer problema crônico, mental, físico ou hereditários de saúde e a capacidade dos alunos da escola publica alemã, serem capazes de calcular a economia que o Estado terá em, ao invés de dar o tratamento necessário a essas pessoas, as eliminam. Dois pontos de vista são apresentados nesta cena, Dora se indigna com tais práticas e tamanha desumanidade, já a diretora da escola onde ela trabalha, e quem apresenta tais fatos decorrer da conversa, se espanta em presenciar a capacidade dos alunos de sete anos da Alemanha conseguirem realizar as operações aritméticas, mais uma vez fazendo referência a toda a aceitação de algumas parcelas da população quanto ao ideário nazista e sua supremacia racial.
O clima nacionalista na Itália é tão presente e evidente quanto na Alemanha, até mesmo os confetes soltos no salão durante a dança são das cores da bandeira italiana, e também na presença de integrantes dos “Camisas Negras”. Os Camisas Negras formam o exercito de Mussolini. Como eles Mussolini realizou a “Marcha sobre Roma” em 1922, esse exercito é chamado assim devido a seu uniforme preto em homenagem aos combatentes da Primeira Guerra Mundial que utilizavam um uniforme todo preto, e assim mais uma vez mostrando o poder do Duce.
O “bolo etíope” surge mais para consolidar a força da Itália. Após a partilha da África, a Itália se sente prejudicada por não receber “seus devidos territórios”, coube a Itália a Líbia, a Eritréia e parte da Somália, com esse sentimento de leso, a Itália se volta contra a Etiópia alegando sua anexação para a formação do espaço vital italiano, podendo assim aproveitar suas matérias primas, porém, seu real motivo foi a ocultação dos reais problemas internos enfrentados pelo regime, da qual o Duce se utiliza para o desvio de foco destes problemas, desta maneira, tudo que envolver a cultura etíope é utilizado para a afirmação da superioridade racial e militar italiana, a saudação do Camisa Negra consolida esta idéia. Mesmo sendo um bolo etíope, ele segue todo ornamentado com as cores da bandeira italiana. Guido entra com o cavalo “verde” de seu tio e leva sua “princesa” Dora para sua casa.